O Homem·7 min de leitura

Raízes num mundo líquido: a árvore, a água e a palavra firme

O que Zygmunt Bauman chamou de modernidade líquida, e o que o Salmo 1 e Mateus 5:37 dizem sobre ter raízes e uma palavra em que se pode confiar.

Fundador· 18 de julho de 2026

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Você muda de emprego, de cidade, de aplicativo, de grupo de mensagens. Talvez, anos atrás, houvesse uma agenda de papel e um endereço fixo; hoje, quase nada ao redor guarda a mesma forma por muito tempo. Parte disso é bom. Parte cansa, e nem sempre sabemos dizer por quê.

Há um jeito de nomear esse cansaço sem culpar ninguém: o mundo à nossa volta ficou líquido. Líquido não é ruim em si; a água é vida. Mas um líquido não segura forma, e uma pessoa que vive num mundo assim pode sentir que não tem onde se apoiar.

Este texto olha para essa sensação com duas companhias bem diferentes: um sociólogo do nosso tempo e um poema antigo, com mais de dois mil anos. Nenhum dos dois acusa quem lê. Os dois falam de onde uma vida pode se firmar.

Um mundo que não guarda forma

O sociólogo é Zygmunt Bauman (1925–2017), nascido na Polônia e professor por muitos anos na Universidade de Leeds, na Inglaterra. Em Liquid Modernity (Modernidade Líquida), de 2000, ele propõe uma imagem. Os sólidos têm forma própria e a mantêm; os líquidos mudam de forma com facilidade e escorrem. Para Bauman, a vida moderna passou de uma fase mais "sólida", com instituições, empregos e papéis que duravam décadas, para outra "líquida", em que quase tudo é provisório e pode ser refeito a qualquer momento.

Uma consequência que ele destaca: quando as estruturas estáveis perdem força, o trabalho de montar uma vida com sentido cai sobre cada pessoa, sozinha. Escolher carreira, relações e identidade fica mais livre, e também mais pesado.

Dois cuidados. Primeiro, Bauman descreve uma condição da sociedade, não um defeito de caráter de quem vive nela. Segundo, ele escreveu sobre modernidade líquida, amor líquido e vida líquida, mas não usa a imagem para apontar um tipo de pessoa a ser corrigido. "Homem líquido" é um uso que outros fizeram da imagem, e este ensaio o deixa de lado: o que cabe aqui é a pergunta que a imagem desperta, que vale para qualquer pessoa.

O que é bom no fluido, e o que cansa

Seria injusto pintar o passado como um paraíso firme. Estruturas "sólidas" também prendiam: trabalhos que ninguém escolhia, papéis impostos, lugares de onde não se saía. Poder mudar, recomeçar e conhecer gente de outros mundos é um ganho real.

O que cansa é outra coisa: não ter nada que dure o bastante para ser chamado de casa. Quando a opinião, o emprego e até a amizade são sempre "por enquanto", fica difícil responder quem somos e o que prometemos. Não há estudo único que meça isso com exatidão, e cada vida é diferente. Mas muita gente reconhece a descrição, e o reconhecimento já é um ponto de partida honesto.

A árvore plantada junto à água

O que o texto diz. O Salmo 1 abre o livro dos Salmos, a coleção de orações e cânticos do povo de Israel. Ele não traz o nome de um autor, e a tradição que o liga a Davi não vem do próprio texto. O poema abre com uma felicidade: feliz quem não anda com os que fazem o mal, não para no caminho dos que erram, nem se senta com os que zombam (Salmo 1:1). Em vez disso, essa pessoa tem prazer na instrução do Senhor e a repete baixinho, de dia e de noite (Salmo 1:2). Então vem a imagem: ela é como uma árvore plantada junto a ribeiros de água, que dá fruto na estação certa, e cuja folha não murcha (Salmo 1:3). Os que seguem outro caminho são como a palha que o vento leva (Salmo 1:4). O poema termina dizendo que o Senhor conhece o caminho dos justos (Salmo 1:6).

O que significa. Três detalhes ajudam. Primeiro, "instrução" traduz a palavra hebraica torá, que é mais ampla que "lei": é o ensino de Deus ao seu povo, a palavra que orienta a vida. Segundo, "meditar", no hebraico, é murmurar, ler em voz baixa, repetir; é um hábito do corpo e da boca, não só da cabeça. Terceiro, a árvore está plantada: quem a pôs ali foi outra mão, e a água corre por canais já abertos. Ela não cria o rio; fica perto dele.

A palha é o oposto: sem peso, sem raiz, levada para onde o vento sopra. O poema contrasta dois jeitos de existir. Um tem onde se firmar; o outro vai para onde o empurram. O texto não diz que as pessoas "valem menos" ou "valem mais": descreve dois caminhos e para onde cada um leva. Também não promete que tudo dará certo para o justo; os próprios Salmos (e Jó) mostram que gente fiel sofre. A imagem fala de fundamento e de fruto no tempo certo, não de uma vida sem tempestade.

O que muda na vida. Aplicando, não lendo no texto o que ele não diz: o Salmo 1 sugere que raiz é algo que se recebe e se frequenta. Pode ser um trecho curto das Escrituras lido em voz baixa de manhã, a mesma oração dita todas as noites, uma mesa onde se come com os mesmos irmãos toda semana. A árvore não se firma num dia; firma-se por perto da água, estação após estação.

Sim e não: a palavra que se pode contar

Há outra forma de raiz: a própria fala. Em Mateus 5:33–37, dentro do Sermão do Monte, Jesus lembra que se costumava jurar por céu, terra ou Jerusalém para dar peso ao que se dizia. Ele responde que isso não é necessário: que o "sim" seja sim, e o "não" seja não (Mateus 5:37). O mesmo eco aparece em Tiago 5:12.

No contexto, Jesus fala de honestidade tão simples que dispensa reforço. Quem sempre cumpre o que diz não precisa de juramentos. As tradições cristãs divergem sobre se ele proíbe todo juramento, inclusive o de um tribunal; o que todas reconhecem é o ponto central: uma palavra confiável vale mais que mil promessas enfeitadas.

Aplicando: num mundo em que "vou ver" e "te aviso" costumam significar "talvez não", dizer sim só quando é sim, e não quando é não, é uma forma discreta de raiz. Não exige discurso: um compromisso pequeno, cumprido, já pesa. E vale dizer: mudar de ideia por boa razão e avisar com respeito não quebra essa palavra; o que a quebra é sumir sem avisar.

Raiz não é parede

Há um mal-entendido a evitar. Ter raiz não é ficar duro, nem desprezar quem pensa diferente, nem fugir de tudo o que muda. Uma árvore balança com o vento; o que ela não faz é sair do lugar. Ter um centro firme é o que permite ouvir os outros sem medo de se perder.

Também não é solução para fazer sozinho. O texto fala de "caminho" e de "assembleia" dos justos (Salmo 1:5), isto é, de uma comunidade. Raízes crescem melhor em solo compartilhado.

Um passo pequeno

Sem ordem e sem pressa, aqui vai uma pergunta: onde, na sua semana, há "água" que corre por perto e que você poderia frequentar com mais constância? Uma leitura curta, um encontro, uma prática. E um passo possível: escolher uma promessa pequena que você sabe cumprir e cumpri-la por um mês, para ver o que muda em você.

Leituras

  • BAUMAN, Zygmunt. Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press, 2000. (Edição brasileira: Modernidade líquida, trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.)
  • Bíblia. Salmo 1; Mateus 5:33–37; Tiago 5:12; Jó (sobre o sofrimento de quem é fiel).

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Salmo 1:1–6 · Perguntas que quase todo mundo faz ao ler esta passagem. Abra a que for sua.

Quem escreveu o Salmo 1, e para quê?

O Salmo 1 não traz o nome de um autor, ao contrário de muitos salmos que levam um título. A tradição liga o livro dos Salmos a Davi, mas isso não vem deste poema em si; estudiosos discutem como a coleção foi montada. O que se vê é que ele funciona como porta de entrada: abre o livro mostrando dois caminhos, o de quem se firma na instrução de Deus e o de quem vai à deriva. Muitos estudiosos leem os Salmos 1 e 2 juntos, como abertura: o primeiro começa com "feliz" e o segundo termina com "felizes". Quando e por quem foi escrito, o texto não diz.

O que muda na vida

Ler o poema como porta de entrada ajuda a ver que ele convida antes de explicar. Dá para começar pelo primeiro verso e ficar nele um tempo.

Para conferir: Salmo 1:1 · 1:6 · 2:12

O que é essa "lei" que a pessoa medita dia e noite?

A palavra hebraica é torá, que quer dizer instrução, ensino. É mais ampla que "lei" no sentido de regras: é o que Deus ensinou ao seu povo para viver bem. "Meditar" também tem sentido físico: murmurar, ler em voz baixa e repetir. O poema fala de prazer nessa palavra, não de obrigação. Por isso a imagem é de gosto e de hábito, como quem volta a uma fonte. O texto não explica um método; mostra uma pessoa que fica perto do que a alimenta.

O que muda na vida

Pode ser simples: ler um trecho curto em voz baixa e deixá-lo acompanhar o dia. O poema fala de gosto, não de tarefa.

Para conferir: Salmo 1:2 · 119:97 · Josué 1:8 · Deuteronômio 6:6–7

O Salmo diz que quem é fiel nunca sofre nem fracassa?

O verso diz que a árvore dá fruto na estação certa e que suas folhas não murcham, e que tudo o que essa pessoa faz prospera. Mas o próprio livro dos Salmos traz muitos clamores de gente fiel que sofre, e Jó trata de um homem justo que perde tudo. Por isso muitos estudiosos leem a imagem como firmeza e vida que dura, não como promessa de que nada de ruim acontecerá. A árvore também passa por tempestade e seca; a diferença é a raiz junto à água. O texto não detalha o que acontece em cada caso.

O que muda na vida

Se a vida anda difícil, isso não prova que você se afastou da água. O poema fala de raiz, não de um caminho sem tempestade.

Para conferir: Salmo 1:3 · Jeremias 17:7–8 · Jó 1:1 · Salmo 73:2–3

Palha levada pelo vento, um caminho que se perde: o Salmo condena as pessoas para sempre?

Os versos 4 a 6 dizem que os ímpios são como palha: na colheita, o grão era jogado ao ar e o vento levava a casca leve. Eles não ficam de pé no julgamento nem na assembleia dos justos. O Senhor conhece o caminho dos justos; o outro caminho se perde. No hebraico, "conhecer" é mais que saber: é cuidar de perto. O poema compara dois caminhos e onde cada um termina; não diz quem fica em qual para sempre. Outros textos mostram Deus chamando quem erra de volta, para que viva.

O que muda na vida

O Salmo fala de caminhos, e caminho se pode trocar. Ninguém está longe demais para voltar para perto da água.

Para conferir: Salmo 1:4–6 · Ezequiel 18:23 · Mateus 7:13–14

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