Fé·7 min de leitura

Sem Medo: Os Pardais, os Cabelos Contados e a Confiança

O que Jesus disse aos Doze em Mateus 10:26–31 e o que isso muda para quem tem medo: fé como confiança, sem negar o perigo nem o sentimento.

Fundador· 13 de setembro de 2026

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O que Jesus disse aos Doze em Mateus 10:26–31 e o que isso muda para quem tem medo: fé como confiança, sem negar o perigo nem o sentimento.

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Quase todo mundo conhece um medo que não se explica direito. Pode ser o medo de falar a verdade numa reunião, de ser deixado de fora, de faltar dinheiro no fim do mês ou de uma notícia que ainda nem chegou. Ele aparece de madrugada, ou no meio do dia, e muitas vezes decide por nós: o que dizemos, o que calamos, a quem nos juntamos.

Este ensaio olha para esse medo com a ajuda de um trecho curto de Jesus, em Mateus 10:26–31. É um texto muito citado e pouco lido no seu contexto. Quando se lê com calma, ele não ensina a fingir coragem. Ele oferece outra coisa: uma razão para confiar.

Quando o medo decide por nós

O medo não é inimigo. Ele existe para nos avisar de perigo, e em muitos momentos faz bem em nos avisar. O problema começa quando ele passa de aviso a comando: quando deixamos de fazer o que é certo, ou de dizer o que é verdadeiro, só porque temos receio da reação dos outros.

Uma saída comum é dar nome de vilão a tudo isso: "o sistema", "eles", "o mundo moderno". Soa forte, mas explica pouco. Quase sempre o medo tem rosto pequeno e conhecido: um chefe, uma opinião, uma conta, uma doença. Jesus não falou de um inimigo difuso. Falou a pessoas reais, num momento real.

Para quem Jesus falou

Antes do trecho, é bom saber onde ele está. O capítulo 10 de Mateus conta o dia em que Jesus enviou os doze discípulos pela primeira vez, para anunciar que o reino dos céus estava próximo, entre o povo de Israel (Mateus 10:5–7). Ele não esconde o risco. Diz que os manda como ovelhas no meio de lobos, e que eles seriam levados a tribunais e açoitados nas sinagogas (Mateus 10:16–18).

É nesse quadro que vem o "não tenham medo". Os estudiosos discutem até que ponto essas palavras já refletem a experiência das primeiras comunidades cristãs, que Mateus conhecia quando escreveu. Em qualquer dos casos, o ponto é o mesmo: a frase não é um lema de motivação. É palavra dita a gente que ia enfrentar perigo de verdade.

O que Jesus diz em Mateus 10:26–31

O que o texto diz. Jesus repete três vezes que os discípulos não devem ter medo (versículos 26, 28 e 31). Primeiro, diz que nada está escondido que não venha a ser descoberto. O que ele diz em particular, eles devem dizer às claras; o que ouvem em sussurro, devem anunciar dos telhados, isto é, em voz alta e em público (versículos 26 e 27).

Depois vem o versículo mais difícil. Jesus diz para não temerem os que matam o corpo e não podem matar a alma, e sim aquele que pode destruir alma e corpo na Geena (versículo 28). Geena era o nome de um vale ao sul de Jerusalém, usado na Bíblia como imagem do castigo final. O texto não diz o nome desse "aquele". A maioria dos leitores entende que é Deus; alguns pensam no diabo. Há divergência, e é honesto dizer isso.

Logo em seguida, o tom muda. Dois pardais se vendiam por uma moeda de pouco valor, e nenhum deles cai no chão sem o Pai de vocês. Até os cabelos da cabeça estão todos contados. "Não tenham medo: vocês valem mais do que muitos pardais" (versículos 29 a 31). Em Lucas 12:6–7 aparece a mesma imagem: cinco pardais por duas moedinhas, e nenhum é esquecido por Deus.

O que significa. Pardal era uma ave barata, vendida no mercado. Jesus escolhe de propósito o menor exemplo. O argumento é de "quanto mais": se Deus não perde de vista o que quase não tem preço, ele não perde de vista pessoas.

Sobre a Geena, o sentido mais provável é este: temer a Deus, na Bíblia, quer dizer levar a sério quem tem a última palavra. E o texto mostra de imediato quem é essa pessoa, um Pai que conhece cada um a ponto de contar os seus cabelos. Não é um chamado para viver aterrorizado. É uma troca de medos que termina em confiança: quem leva Deus a sério deixa de ser governado pelo medo das pessoas.

Note também o que o texto não promete. O pardal ainda cai. Jesus não diz que os discípulos escapariam de tribunais ou de açoites; ele acabou de dizer que não escapariam. A promessa é outra: nada acontece longe do Pai, e vocês valem para ele muito mais do que muitos pardais. E há uma pergunta que o texto deixa em aberto: ele não explica por que certas coisas ruins acontecem.

O que muda na vida. Aqui já estamos aplicando, e não lendo o que o texto disse aos Doze. Hoje ninguém é enviado da mesma forma e com os mesmos riscos, mas a lógica do texto pode nos ajudar. Se até o menor detalhe da nossa vida é conhecido, não precisamos carregar o medo sozinhos. Isso não tira o medo, nem promete que as coisas vão dar certo. Muda o lugar onde a gente o coloca: deixa de ser uma sentença e vira algo que podemos dizer a alguém que nos ouve.

Na prática, pode ser uma oração curta e honesta, dizendo o que se teme, com nome e tudo. Pode ser contar a um amigo de confiança o que se tem calado. Pode ser, depois de pensar bem, dizer uma verdade que o medo mandava guardar. Nada disso é uma obrigação; são caminhos possíveis para quem quer confiar um pouco mais.

Medo e fé podem andar juntos

Há um erro comum: achar que ter fé é não sentir medo. O próprio texto não sustenta isso. Jesus avisa dos perigos e, no mesmo fôlego, diz "não tenham medo". Ele não chama o medo de mentira.

O Evangelho de Mateus mostra o próprio Jesus na noite em que foi preso. Ele diz que sua alma está profundamente triste, e pede a três amigos que fiquem acordados com ele (Mateus 26:37–38). Se Jesus não escondeu a angústia, não precisamos esconder a nossa. Os Salmos também são cheios de gente com medo que ora. O Salmo 56:3 diz: quando eu tiver medo, confiarei em ti. Repare no "quando": o salmista não diz "se".

O que Jesus pede, então, não é a ausência do sentimento. É que o medo não tome a decisão por nós: que falemos e ajamos de acordo com o que é certo, mesmo trêmulos. Isaías 41:10 vai na mesma direção: Deus pede ao seu povo que não tema e, junto com o pedido, dá a razão, a sua própria presença.

Uma palavra de cuidado. Para quem vive com medo constante, que trava a vida ou não passa nunca, ter fé não substitui conversar com um profissional de saúde. Buscar ajuda não contradiz a confiança em Deus; muitas vezes é um dos modos de cuidar da vida que ele deu.

Um passo pequeno

Em vez de uma conclusão, uma pergunta para um momento tranquilo. Qual é o medo que mais tem decidido por mim, e a quem eu poderia contá-lo, em oração ou em conversa? E, se houver algo verdadeiro que venho calando, qual seria o menor passo, bem pensado e no meu tempo, para dizê-lo?

Os pardais ficam como lembrança: pequenos, baratos, conhecidos. Se são vistos, nós também somos.

Leituras

  • Bíblia: Mateus 10:1–42; Mateus 26:36–46; Lucas 12:4–7; Salmo 56; Isaías 41:10.
  • The Gospel of Matthew, de R. T. France, Eerdmans, 2007 (comentário, em especial sobre o capítulo 10).
  • A Commentary on the Gospel of Matthew, de Craig S. Keener, Eerdmans, 1999 (reeditado em 2009 como The Gospel of Matthew: A Socio-Rhetorical Commentary).

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Mateus 10:26–31 · Perguntas que quase todo mundo faz ao ler esta passagem. Abra a que for sua.

Para quem Jesus disse isso, e em que situação?

Para os doze discípulos, quando os enviava pela primeira vez. Ele não esconde o risco: diz que os manda como ovelhas no meio de lobos, e que seriam levados a tribunais e açoitados. É nesse contexto que vem o “não tenham medo”. Não é uma frase de motivação solta. É palavra para gente que ia enfrentar perigo real.

O que muda na vida

A coragem que Jesus oferece não nasce de fingir que o perigo não existe. Nasce de saber a quem você pertence.

Para conferir: Mateus 10:5 · 10:16–18 · 10:26

Então Jesus está mandando ter medo de Deus?

O versículo diz: temam antes aquele que pode destruir a alma e o corpo na Geena. Geena era o nome de um vale perto de Jerusalém, usado como imagem do castigo final. O texto não diz o nome de quem é esse; a maioria dos leitores entende que é Deus, e alguns pensam no diabo. Mas a frase seguinte muda o tom: nenhum pardal cai sem esse mesmo Pai, e ele conhece cada um de vocês. Na Bíblia, temer a Deus é levar a sério quem tem a última palavra, e quem tem a última palavra é um Pai.

O que muda na vida

Quem leva Deus a sério deixa de ser governado pelo medo das pessoas. É uma troca de medos que termina em confiança.

Para conferir: Mateus 10:28–31

O que os pardais e os cabelos contados querem dizer?

Pardais eram passarinhos baratos, vendidos no mercado: dois por uma moedinha. Mesmo assim, diz Jesus, nenhum cai no chão sem o Pai de vocês. E até os cabelos da cabeça estão todos contados. O texto não promete que nada de ruim vai acontecer: o pardal ainda cai. Promete que nada acontece longe de Deus, e que vocês valem mais do que muitos pardais. Em Lucas, a mesma imagem diz que nenhum deles é esquecido por Deus.

O que muda na vida

Se até o menor detalhe da sua vida é conhecido, você não precisa carregar o medo sozinho.

Para conferir: Mateus 10:29–31 · Lucas 12:6–7

Ter fé é não sentir medo nenhum?

Jesus repete “não tenham medo” três vezes nesse trecho e, ao mesmo tempo, avisa dos perigos. Ele não chama o medo de mentira. O próprio Jesus, na noite em que foi preso, sentiu uma tristeza profunda e pediu aos amigos que ficassem acordados com ele. O que ele pede aos discípulos é que o medo não decida por eles: que digam às claras o que ouviram em particular.

O que muda na vida

Sentir medo não é falta de fé. A fé aparece quando, mesmo com medo, você faz o que é certo.

Para conferir: Mateus 10:26–28 · 10:31 · 26:37–38

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