Atualidade & Sociedade·7 min de leitura

O Olhar que Vigia e o Olhar que Cuida

Do Panóptico de Bentham à vigilância digital, e a história de Hagar em Gênesis 16: a diferença entre ser vigiado e ser visto por quem cuida.

Fundador· 15 de julho de 2026

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Do Panóptico de Bentham à vigilância digital, e a história de Hagar em Gênesis 16: a diferença entre ser vigiado e ser visto por quem cuida.

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Quase todo mundo já sentiu isto. Você abre um aplicativo e ele parece saber onde você esteve. Você pesquisa um par de sapatos e ele aparece em anúncios por dias. Passa por uma câmera na rua e nem repara mais. Ninguém está olhando para você em particular, e mesmo assim a sensação de ser observado fica no ar.

Existe um olhar que vigia e existe um olhar que cuida. De fora, os dois se parecem: alguém está vendo. Por dentro, são opostos. Este ensaio tenta separá-los, com ajuda de dois pensadores e de uma mulher da Bíblia que foi vista no pior dia da vida dela.

A torre no meio do pátio

No fim dos anos 1700, o filósofo inglês Jeremy Bentham desenhou uma prisão a que deu o nome de Panóptico. Partiu de uma ideia do irmão, Samuel, e a explicou em cartas escritas em 1787, publicadas no livro Panopticon; or, The Inspection-House (1791). O prédio era circular, com as celas em volta e uma torre no centro. De lá, um vigia podia ver qualquer preso, mas os presos não sabiam quando estavam sendo olhados. Bentham pensava em reformar prisões e também sugeriu a ideia para fábricas, escolas e hospitais.

Quase dois séculos depois, o francês Michel Foucault usou essa imagem em Vigiar e Punir (1975). Ele não falava só de prisões. Dizia que a ideia da torre mostra como o poder moderno funciona: quem sabe que pode ser visto a qualquer momento passa a vigiar a si mesmo. O olhar de fora vira um olhar de dentro.

É uma boa lente, mas não explica tudo. Estudiosos lembram que hoje muita gente também se expõe por vontade própria, e que a imagem de uma torre só não dá conta de tantos olhares ao mesmo tempo. Ela serve para fazer uma pergunta: o que acontece com uma pessoa que se sente sempre vista?

O que se sabe, e o que não se sabe

Há coisas que podem ser ditas com segurança. Muitos serviços digitais guardam dados sobre o que fazemos, e o assunto é sério o bastante para ter lei: no Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709, de 2018); na União Europeia, o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (aprovado em 2016, aplicado desde 2018).

A pesquisadora Shoshana Zuboff, que foi professora na Harvard Business School, defende em The Age of Surveillance Capitalism (2019) que empresas coletam dados de comportamento para prever o que as pessoas vão fazer e vender essa previsão. É uma tese, e ela tem críticos. Vale ler com atenção, sem aceitar tudo nem descartar tudo.

E o efeito sobre o comportamento? Um estudo do pesquisador Jonathon Penney (2016, Berkeley Technology Law Journal) olhou o acesso a 48 verbetes da Wikipédia em inglês ligados a terrorismo. Depois de junho de 2013, quando vieram a público as revelações sobre a vigilância do governo americano, as visitas caíram e a tendência mudou. Isso sugere que saber-se observado pode fazer as pessoas evitarem certos assuntos. Mas é um estudo, feito por observação, e seu método já foi contestado. Outras explicações são possíveis. Não prova que todos nós nos calamos.

O que não sabemos: quanto, de fato, cada um de nós é afetado, e em que medida. Quem afirma isso com certeza total está dizendo mais do que os dados dizem.

Hagar no deserto

Há uma história bem antiga sobre ser visto. Ela está em Gênesis 16, e a pessoa vista se chama Hagar.

O que o texto diz

Hagar era uma escrava egípcia de Sarai, mulher de Abrão. Sarai não tinha filhos, e deu Hagar a Abrão para que tivesse um filho por ela. Hagar engravidou, e entre as duas mulheres veio o conflito. Sarai a tratou com dureza, e Hagar fugiu para o deserto.

Foi ali, junto a uma fonte no caminho de Sur, que o anjo do Senhor a encontrou (Gênesis 16:7). Ele a chamou pelo nome, coisa que Abrão e Sarai não fazem nenhuma vez no capítulo: para eles, ela é só "a serva". E fez duas perguntas: de onde vem e para onde vai. Mandou que ela voltasse para Sarai e se submetesse a ela, e prometeu uma descendência numerosa (Gênesis 16:9–10). Disse que ela teria um filho, que se chamaria Ismael, "Deus ouve", porque o Senhor tinha ouvido a sua aflição. Hagar então deu a Deus um nome, El Roi, que costuma ser traduzido como "o Deus que me vê" (Gênesis 16:13). O poço ficou conhecido como Beer-Lahai-Roi.

O que significa

Pense em quem era Hagar: estrangeira, escrava, em fuga, sem poder nenhum. Quem a vê é Deus, e a vê com nome, com história e com aflição. O olhar aqui não serve para prender nem para medir. Serve para encontrar. O mesmo verbo do nome, "ver", aparece na fala do próprio Deus a Moisés, séculos depois na história bíblica: ele viu a aflição do povo e ouviu o seu clamor (Êxodo 3:7).

Dois pontos pedem honestidade. Primeiro, o anjo manda Hagar voltar para Sarai (Gênesis 16:9). Muitos leitores se incomodam com isso, e com razão. O texto não explica o motivo, não aprova o mau trato e deixa claro que Deus ouviu a aflição dela. Tradições diferentes leem esse versículo de modos diferentes. Mais tarde, quando Hagar é mandada embora de vez, Deus ouve a voz do menino, chama Hagar outra vez e lhe mostra um poço (Gênesis 21:17–19). Segundo, o final do versículo 13 é difícil em hebraico, e as traduções divergem. Por isso o ensaio não crava uma tradução só.

O que muda na vida

Um jeito de aplicar: nem todo olhar sobre nós é uma torre. Há quem nos veja para cuidar. Dá para levar essa ideia para um dia pesado, em que a gente se sente invisível ou exposto demais, e lembrar que a Bíblia mostra Deus indo atrás de quem ninguém procurava.

O olhar do Pai, em secreto

Em Mateus 6:1–6, Jesus fala a quem o ouvia no Sermão do Monte. Ele diz que, ao dar esmola, ao orar, a pessoa não deve fazer para ser vista pelos outros. Quando orar, que entre em seu quarto, feche a porta e fale com o Pai, que vê o que acontece em secreto.

Isso parece o contrário de Hagar, mas combina. No contexto, o problema que Jesus aponta é viver para a plateia: agir bem só para ser aplaudido. O Pai que vê em secreto tira esse peso. Não é preciso se mostrar para valer alguma coisa. Há um olhar que já conhece e já recebe.

Isso não resolve uma dúvida honesta: se Deus conhece tudo, não seria uma vigilância total? A Bíblia não esconde que Deus conhece a pessoa por inteiro. O que ela mostra é o jeito desse conhecer. Em Lucas 19:1–10, Jesus olha para cima e vê Zaqueu, um cobrador de impostos mal visto na cidade, chama-o pelo nome e vai à casa dele. O olhar vem como visita, não como vistoria.

Um passo pequeno

Não é preciso jogar o celular fora nem fingir que a vida digital não existe. Alguns passos pequenos ajudam, e cada um escolhe o seu ritmo.

  • Olhar, uma vez, as permissões dos aplicativos que mais usa, e desligar o que não faz sentido.
  • Ter um canto do dia sem tela, onde ninguém e nada observa.
  • Conversar com alguém de confiança, pessoalmente, sobre o que pesa.
  • Dedicar alguns minutos a falar com Deus como Hagar falou: sem pose, dizendo onde está e de onde vem.

A pergunta que fica é simples: em que lugar da sua vida você se sente apenas vigiado, e em que lugar você se sente visto de verdade?

Leituras

  • Bíblia: Gênesis 16:1–16; 21:8–21; Êxodo 3:7; Mateus 6:1–6; Lucas 19:1–10.
  • Panopticon; or, The Inspection-House, de Jeremy Bentham, 1791.
  • Vigiar e Punir, de Michel Foucault, 1975 (em inglês, Discipline and Punish, 1977).
  • The Age of Surveillance Capitalism, de Shoshana Zuboff, PublicAffairs, 2019.
  • "Chilling Effects: Online Surveillance and Wikipedia Use", de Jonathon W. Penney, Berkeley Technology Law Journal, v. 31, n. 1, p. 117–182, 2016.
  • Lei 13.709/2018 (LGPD) e Regulamento (UE) 2016/679 (GDPR).

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Dúvidas que surgem

Gênesis 16:7–14 · Perguntas que quase todo mundo faz ao ler esta passagem. Abra a que for sua.

Quem era Hagar e por que estava sozinha no deserto?

Hagar era uma escrava egípcia de Sarai, mulher de Abrão. Sarai não tinha filhos e a deu a Abrão para ter um filho por meio dela, um costume daquele mundo antigo. Quando Hagar engravidou, o conflito entre as duas cresceu, e Sarai a tratou com dureza. Hagar fugiu. O texto a mostra junto a uma fonte, no caminho de Sur, sem casa, sem poder e sem ninguém. É ali, nesse ponto de fragilidade, que o anjo do Senhor a encontra.

O que muda na vida

A história começa com alguém que ninguém procurava. Se você já se sentiu assim, ela foi escrita para dizer que esse lugar não está fora do alcance de Deus.

Para conferir: Gênesis 16:1–7 · 21:9–10 · Êxodo 3:7

O que significa chamar Deus de "o Deus que me vê"?

Hagar dá a Deus um nome, em hebraico El Roi, que quer dizer algo como "Deus que vê" ou "Deus da visão". O poço ganha o nome de Beer-Lahai-Roi. O contexto mostra que esse "ver" é cuidado: o anjo a chama pelo nome, pergunta de onde vem e para onde vai, e diz que Deus ouviu a sua aflição. O final do versículo 13 é difícil em hebraico, e as traduções divergem, por isso não dá para afirmar com certeza como Hagar diz a frase.

O que muda na vida

Ser visto por Deus, aqui, não é ser fiscalizado. É ser encontrado. Vale pensar que lugar da sua vida precisa dessa visita.

Para conferir: Gênesis 16:13–14 · 21:17 · Salmo 34:15

Por que o anjo mandou Hagar voltar para quem a maltratava?

Em Gênesis 16:9, o anjo manda Hagar voltar a Sarai e se submeter a ela. O texto não explica o motivo, e muitos leitores se incomodam com isso. Alguns estudiosos lembram que ela estava grávida, sozinha e sem proteção no deserto; outros destacam a promessa que vem junto, de descendência e de um filho. O texto não aprova o mau trato: diz que Deus ouviu a aflição dela. Mais tarde, quando Hagar é mandada embora, Deus a socorre de novo. Tradições diferentes leem isso de maneiras diferentes.

O que muda na vida

Nenhuma leitura de um trecho assim precisa servir de desculpa para aguentar abuso. Quem vive algo parecido pode buscar ajuda de gente de confiança.

Para conferir: Gênesis 16:9–12 · 21:14–19 · Salmo 10:14

Deus vê tudo. Isso não é uma forma de vigilância?

A Bíblia afirma que Deus conhece a pessoa por inteiro. A diferença está no jeito. Em Gênesis 16, o olhar de Deus encontra Hagar e promete cuidado. Em Mateus 6, Jesus fala do Pai que vê em secreto, e o contexto é tirar a pessoa da plateia: não é preciso se exibir para ser conhecida. O texto não diz que a vigilância humana, feita por governos ou empresas, seja assim. O ensaio compara os dois olhares, mas não os trata como iguais.

O que muda na vida

Quando você se sentir vigiado, vale lembrar que há um olhar diferente, que conhece e acolhe. Isso pode aliviar um pouco o peso.

Para conferir: Gênesis 16:13 · Mateus 6:1–6 · Lucas 19:1–10

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